Este Colóquio é uma iniciativa de um grupo de pesquisadores e docentes brasileiros e estrangeiros sobre as obras de Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992) e que dá seqüência ao Colóquio Gilles Deleuze leitor dos modernos, realizado na USP em agosto de 2010. Este segundo Colóquio pretende examinar os efeitos políticos e práticos decorrentes da experiência de pensamento original e inspiradora dos dois tomos de Capitalismo e Esquizofrenia (Anti-Édipo e Mil Platôs), O que é a filosofia? e das obras de Deleuze sobre o cinema, a literatura e as artes plásticas etc.  O Colóquio será aberto com uma mostra de filmes na Cinemateca do MAM, dois espetáculos de música e performance no Teatro Cacilda Becker e em seguida pelas sessões de conversações e apresentações de comunicações no Auditório Gilberto Freyre e na Sala Candido Portinari do Palácio Gustavo Capanema.

Entrevistas com Félix Guattari (legendas em português)

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Parte VI

Entrevista com Félix Guattari (áudio em francês e legendas em grego)

8 de agosto de 2011

Nota da comissão sobre a seleção de propostas

A comissão organizadora recebeu 144 propostas de pesquisadores, docentes, estudantes e profissionais de várias áreas de atividade, do Brasil e do exterior. O trabalho de seleção, necessário pelos limites de espaço e tempo de que dispomos, teve como critério a maior pertinência das propostas em relação ao tema deste Colóquio. Agradecemos imensamente a todos os que participaram até aqui.

3 de maio de 2011

Filosofia prática


Uma das noções norteadoras do pensamento político de Deleuze e Guattari é a de que uma filosofia política que se preze, hoje, deve estar centrada na análise do capitalismo e de seus desenvolvimentos. O interesse por Marx, por parte dos autores de O anti-Édipo e Mil platôs, é a análise do capitalismo como sistema imanente que se reproduz sempre em escala crescente, incorporando inclusive as forças produtivas que se constituem, originalmente, à sua margem e, no mais das vezes, em resistência a ele. Se essa análise, contudo, desloca a si mesma em relação ao debate marxista, é porque soube criar novos conceitos para pensar a singularidade da experiência política da Europa pós-68.

Entre eles, o conceito de linha de fuga (ao invés de contradição) para explicitar os movimentos constitutivos de cada sociedade para além dos regimes jurídicos e institucionais que visam a uniformização e o regramento da vida social. Além disso, o conceito de classe dá lugar ao de minoria, que não se define pelo número, pois ela pode ser mais numerosa que uma maioria. A maioria se apresenta como um modelo que procura se impor como norma, enquanto a minoria é antes um processo que uma adequação ao mesmo (modelo); a minoria é um devir-outro, uma ruptura com o mesmo e uma abertura para o novo enquanto processo de criação.

Nesse sentido, pode-se perguntar se o Brasil contemporâneo não vive um processo de esfacelamento dos modelos majoritários (o homem branco morador dos bairros não-periféricos das grandes cidades do Sul-Sudeste) e por um intenso e múltiplo devir-minoritário: devir-negro, devir-mestiço, devir-mulher, devir-homossexual, devir-nordestino, devir-índio, devir-periferia, que vale para cada brasileiro que se vê arrastado por esses caminhos de criação, que é também o caminho de criação de si como outro.

O debate político que se propõe se define a partir de uma filosofia prática e passa pela produção de sentido, antes que pela decifração do real. Decifrar o real é encontrar o sentido como dado a priori que já comporta em si um esquema de valores estabelecidos que justifica o real tal como ele é, levando a esquivar-se diante da miséria, resignar-se diante do intolerável. O que se propõe é um pensamento que, na apreensão mesma do intolerável, responda enfaticamente através da produção de novos sentidos e valores, numa prática que renuncie a toda política de compromisso com os valores vigentes que resultam na imensa fabricação da miséria humana, material e espiritual. (...) Assim, o pensamento se afirma enquanto prática imanente decorrente das forças da experiência vivida em sua singularidade: não há filosofia que não seja filosofia política. (Sandro Kobol Fornazari)